terça-feira, julho 24, 2007

O propósito de vida que Deus em Cristo tem para o cristão

Base: Atos 20:24


O ambiente em que Paulo apresenta o seu discurso é o seguinte:

Bom, Paulo passar por várias ciladas e perseguições. Teve que sair de um tumulto por causa da deusa Diana em Éfeso [19: 23-41]. Tendo passado vários lugares até marcar um encontro com os líderes da igreja de Éfeso em Mileto.

Antes de estudarmos este pronunciamento de Paulo para um grupo seleto de pessoas, é preciso entender o ambiente em que ele estava inserido.

Em primeiro lugar, entre os discursos registrados em Atos, este é o único dirigido a um público cristão. Todos os outros são sermões evangelísticos, pregados para o povo judeu [2: 14; 14:14] ou gentio [10:34; 17:22], ou defesas legais, diante do Sinédrio nos primeiros dias da igreja [4:8; 5:29].

Em segundo lugar, os líderes são chamados de “presbíteros” [v.17], “bispos” [v.28a] e “pastores” [v.28b], e é evidente que esses termos se referem às mesmas pessoas.

Em terceiro lugar, é evidente que a igreja de Éfeso possuía uma equipe de presbíteros-bispos [presbyteroi v.17, e episkopoi v। 28 que estão no plural]. Paulo fala, então, para uma equipe pastoral.

Introdução:

Recordo-me da minha adolescência quando conversava com uma colega de escola, que era bruxa, assim se intitulava, e ela me fez uma pergunta – Qual é a minha missão? O meu propósito de estar nesta vida?

É natural do homem querer descobrir a razão para tudo. Querer descobrir o sentido da vida.

Os radicais islâmicos levam tal a sério o propósito de sua vida, ou seja, a missão que cada homem tem que desde criança eles são treinados a não valorizarem a sua vida e se tornarem homens bombas.

Numa cidade chamada Taubaté, bem próxima da cidade de onde vim ali existe uma mesquita e descobri que havia um revezamento de um grande período de orações que eram feitas de madrugada. Eles consideram isto como precioso para sua vida.

Mas quando olhamos para a nossa sociedade o que encontramos, é uma sociedade vazia de sentido e propósito de vida. As pessoas são ocas por dentro, elas não conseguem transmitir vida. O diagnostico a ser dado, é que a sociedade está sem um norte de vida.

Bom, não podemos desconsiderar o efeito histórico disto tudo. Há muito tempo às pessoas vivem assim. Tudo isto começou com o esvaziamento da reflexão sobre a ação salvadora de Deus na história. Quando no século XIX igrejas e mais igrejas começaram a aderir um pensamento filosófico e teológico de que Deus não era o suficiente para homem. Na verdade o que isto queria dizer é que, o homem poderia viver muito melhor sem Deus. E isto começou a invadir as igrejas de toda a Europa. O nome disto é teologia liberal, onde a sua argumentação é que Cristo e a sua ressurreição são um mito. O nome deste vazio é chamado de “niilismo” que afirma que não há sentido fundamental na existência humana, não existe propósito, valor nem virtude. É o nada da existência humana. Então, o que vemos hoje é uma descaracterização pelo propósito da vida humana. A razão da existência humana não é simplesmente adorar a Deus e desfruta-lo para sempre, mas agora para o cristão genuíno ele tem uma missão a ser cumprida. Ele tem uma razão de ser salvo.

1) O propósito de vida revelado nas Escrituras é o oposto do propósito de vida da sociedade – “Mas em nada tenho a minha vida como preciosa para mim(...)

A marca desta sociedade é a hiper-valorização por si mesma. Tudo deve girar em torno do seu umbigo. É a necessidade de cada momento você se tornar alguém que tem, é a busca do ter que é um grande vazio.

A proposta de Paulo é que a vida do cristão não é mais direcionada por ele e nem por sua vontade depravada. A sua vida ganha um novo valor na ótica de Cristo, ou seja, você é alguém em Cristo. A sua vida tem valor e sentido em Cristo. Toda beleza e preciosidade da sua vida residem em Cristo e ganha um valor incomparável por causa da glória de Cristo que irradia em você.

Entendimento Paulino: Para Paulo a sua maior preocupação não é sobreviver a todo custo, mas terminar sua carreira e completar a tarefa de Cristo: testemunhar o evangelho da graça de Deus.

Paulo não era um homem interessado em si mesmo. Paulo é o oposto da grande maioria dos pregadores modernos. Em nenhum momento ele quis ser peso para a igreja, mas trabalhava para ajudar no seu sustento. Em nenhum momento se preocupou se teria uma cama ou comida. Toda a atenção e todo foco de Paulo estavam voltados para a sua missão, anunciar as insondáveis riquezas de Cristo. Aqui está o resumo de toda compreensão de vida de acordo com a atitude e vida prática de Paulo – “Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo” [Filipenses 3: 7-8].

O que temos aqui, é que quando Cristo se torna a nossa riqueza de vida acontece uma mudança de valores. Não é mais a minha posição socioeconômica, cultural e familiar que irá ganhar o meu coração e me rotular na sociedade, mas sim Cristo, que se torna o meu referencial de vida e tudo o que tenho e sou irei comparar com Cristo, e verificarei que tudo perde o valor, se torna lixo. Pois Cristo é, incomparavelmente maior e mais valioso do que todos os prazeres e benéficos terrenos. Que na verdade são passageiros.

Para o cristão autentico, o sentido e valor da sua vida não depende mais do seu ambiente e do seu modo de olhar a própria vida, mas o que o cristão precisa fazer agora é olhar para cruz de Cristo e saber que toda razão, que todo sentido e propósito de vida estão em Cristo e resultam da sua vitória sobre a morte e o pecado.

2) O propósito da vida do cristão em Cristo, é ser fiel até o fim“(...)contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus(...)

“Quando a minha fidelidade fica na mera tentativa, a minha vida se torna algo sem expectativa”

A vida cristã não é estática, ela é dinâmica.

No caminho para o céu não encontramos placas como: “Se sentir vontade pode relaxar”.

Há muitos degraus para a eternidade. A cada dia que se passa, você sobe um degrau a mais.

Não somos o mar Morto. Embora muitos vivem como se fossem.

A vida cristã exige perseverança. E esta é uma das marcas que evidenciam se de fato você é um cristão.

Quero lhe dizer que muitos empecilhos surgirão para te desmotivar. É necessário que você esteja atento e firme naquilo que o próprio Cristo entregou na sua mão. Entenda isto, Cristo te deu uma missão e você precisa cumpri-la.

John Bunyan no seu livro “O Peregrino” conta-nos uma história da viagem do Cristão que saiu da cidade chamada “Destruição” para a cidade de Sião. Na sua jornada, Cristão encontrou-se com vários personagens. Entre eles estavam Vacilante, Obstinado, Formalista, Hipócrita, Desconfiado, Tímido, Sábio Segundo o Mundo. Todos estes surgiram na viagem de Cristão, tentando dissuadi-lo do seu propósito.

É isso que passamos. Pressões e mais pressões vem sobre nós tentando sucumbir a nossa fé e a nossa fidelidade. O próprio Cristo que nos entregou esta missão irá nos cobrar no grande juízo.

É o nosso dever seguir a risca o que Apocalipse 2:10 diz – “Sê fiel até a morte”. A semelhança de Cristo que foi fiel e obediente até a morte e morte de cruz, assim também deve ser a nossa atitude. Não podemos simplesmente esperar a fidelidade do Senhor. Precisamos ser fiéis a Ele também.

É interessante que Paulo trabalha com a idéia de que a pessoa que está na carreira da fé. Na carreira do ministério é semelhante a um atleta – “Complete a carreira” ou “terminar a corrida” são imagens atléticas, os filósofos com freqüência usavam essas imagens para descrever sua própria missão.

I Co. 9: 24-26 – “Vocês não sabem que de todos os que correm no estádio, apenas um ganha o prêmio? Corram de tal modo que alcancem o prêmio. Todos os que competem nos jogos se submetem a um treinamento rigoroso, para obter uma coroa que logo perece, mas nós o fazemos para ganhar uma coroa que dura para sempre. Sendo assim, não corro como quem corre sem alvo,(...)”.

“É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas a graça das graças é não desistir nunca”.Hélder Câmara

A exortação de Paulo é que, não é suficiente começar o caminho do Senhor, mas sim termina-lo, porque tudo o que foi construído se não tiver um fim fiel, será perdido.

Portanto, aquele que está na carreira que o evangelho nos convoca, não tem motivos para estar satisfeito consigo mesmo, a não ser que prossiga até à morte. Pois tudo o que Deus espera de nós, é que prossigamos incansáveis ao longo de todo o caminho em direção ao alvo. Hebreus 12:2 – “tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé(...)”.

Paulo sabia muito bem o que é ter os olhos fixos em Cristo. Um homem que passou por todas as sortes de provações e perseguições. Ele que conheceu a bonança quanto à escassez. Tinha tudo ao seu redor para tirar o seu foco. Para tirá-lo de sua missão, mas ele foi fiel. É por isso, que com autoridade ele podia dizer que – “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” [II Timóteo 4:7].

3) O cristão tem como propósito e missão ser uma testemunha da graça“(...)de testemunhar do evangelho da graça de Deus

Deus não agiu só em Jesus, mas também continua a agir nos seus seguidores. Nenhum escritor do Novo Testamento tem tanta certeza quanto Lucas de que Deus age agora, como confirmam os milagres que ele relata em Atos.

O Deus sobre o qual Lucas escreve não é uma abstração sem poder, mas um Deus poderoso, interessado em seu povo e disposto a agir no meio dele para cumprir seus propósitos. Deus não se permitiu ficar sem testemunha em nenhum momento da história, e isso pode ser visto com clareza nas coisas boas que ele fez e faz por seu povo.

O interessante é que Paulo via Deus constantemente presente na vida cotidiana da sua missão. Deus nunca ficou ausente no ministério de Paulo, por isso, é que Paulo entendia muito bem sobre a presença graciosa do Senhor. Então, Paulo que desfrutava de forma tão real e poderosa a graça de Deus, ele não poderia ficar calado, ele era impelido e motivado a anunciar esta graça que deve ser proclamada nos quatro cantos da terra. Mas que graça é esta? É a nossa completa dependência de Deus para a salvação. Deus não nos abandonou no lugar em que naturalmente nos encontramos, incapacitados pelo pecado e incapazes de nos salvar, mas concede-nos a graça para que possamos ser curados, perdoados e restaurados. A graça é um favor generoso e totalmente imerecido que Deus concede à humanidade. É a cura para sanar a doença da nossa alma que pode nos lançar no inferno. A graça é a verdadeira forma redentora da presença divina em Cristo que atua dentro de nós, transformando-nos, portanto, é uma ação interna e ativa. O que deve ser entendido é que a graça é a força libertadora que livra a natureza humana da escravidão do pecado a que está sujeita.

Eu quero enumerar dois pontos sobre a compreensão desta graça:

1) A graça preveniente - Significa “vir à frente”. É a defesa de que a graça de Deus está atuando na vida do ser humano antes mesmo da conversão. Ela prepara a vontade humana para a conversão. Ela não simplesmente opera na vida da pessoa após sua conversão, é todo o processo que leva à conversão é um processo preparatório no qual a graça preveniente de Deus está ativa.

Entre a graça e a predestinação há apenas esta diferença: a predestinação é a preparação para a graça, enquanto a graça é a doação efetiva da predestinação

Santo Agostinho

2) A graça operativa – Este termo é usado como referencia ao modo pelo qual a graça preveniente não depende da cooperação do homem para produzir seus efeitos. Deus opera na conversão dos pecadores sem que haja a menor participação deles. A conversão é um processo puramente divino, no qual Deus age sobre o pecador.

Deus em Cristo nos chamou para sermos anunciadores desta graça completamente magnífica que é capaz de pegar o pior dos piores homens desta terra e o transformar.

A exemplo da passagem de Lucas 15: 11-32. O filho mais novo abandonou tudo – a família, os amigos e os seus animais. Tomou a sua parte da herança e caiu no mundo. Viveu como um depravado total e perdeu tudo. Caiu no mais profundo do poço e teve como alimento a comida dos porcos. Mesmo tendo traído, abandonado e sendo tão ingrato ao seu pai, quando ele volta arrependido o pai o recebe de braços abertos, chora com o filho, calça as sandálias nos pés do filho, coloca o anel no seu dedo, prepara uma festa e demonstra a falta que aquele filho fez no convívio da família. Isto é graça e Deus faz o mesmo com a gente. Ele nos pega totalmente sujos pelo pecado, e com a sua graça redentora faz tudo novo em nós. É isso que Deus em Cristo quer que sejamos, testemunhas deste evangelho tão gracioso.

“A vida fala mais poderosamente do que as palavras”

Hoje em dia tratamos esta maravilhosa graça como se fosse algo qualquer. É a banalização da graça. Precisamos gritar com a dor do evangelho o que estão tentando fazer com a graça. Quando somos testemunhas de fato deste evangelho, carregamos em nosso corpo as marcas do sofrimento de Cristo e com isto dizemos que a graça não é algo qualquer com que possamos brincar ou banalizar, ela custou um alto preço, a morte de nosso Senhor Jesus Cristo.

Então, se você vive uma graça em que a pregação do perdão é sem arrependimento, em que o batismo é sem a disciplina comunitária, em que a Ceia do Senhor é sem confissão dos pecados, em que a absolvição é sem confissão pessoal. Se a graça barata que você vive é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo e encarnado, você ainda não sabe o que é graça e o pior, você não foi alcançado por ela e não desfruta da plena redenção.

Conclusão:

O verdadeiro sentido e propósito da vida humana estão em conhecer e viver a graça que não tem fim. Que é indizível e transbordante de vida. A graça verdadeira é aquela que nós dispensamos a nós próprios – “(...)nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo(...)”.

Esta graça é para nós preciosa, por custar à vida ao ser humano, e é graça por, assim, lhe dar a vida, é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por ter sido preciosa para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho – “vocês foram comprados por preço” – e porque não pode ser barato para nós aquilo que custou caro para Deus. A graça é preciosa sobretudo porque Deus não achou que seu Filho fosse preço demasiado caro para pagar pelo nossa vida, antes o deu por nós. A graça preciosa é a encarnação de Deus. Ele não é ausente e nem alheio ao sofrimento e perdição do homem. Ele veio até nós em forma de homem. Sofreu como homem. Conheceu a miséria do homem. Ou seja, Ele é o Deus que nos conhece por que viveu como um homem vive. Então, na sua morte e ressurreição nos outorgou a salvação tão desejada pela nossa alma, tão somente pelo poder da sua graça que nos restaurou a sua imagem e semelhança e nos resgatou do império das trevas para o Reino do seu maravilhoso amor.

Deus não nos ama porque somos bom, mas porque somos seu filho”.

Portanto, é para anunciar e testemunhar todo este plano divinamente arquitetado por Deus é que Ele nos chamou como testemunhas vivas, pois esta mesma graça divina que operou e continua operante em nossa vida, é uma mensagem viva de Deus para esta geração.